Pressão vence o mau gosto

Marcas que utilizam pele animal viram alvo de protetores, recebem críticas e um aviso: “Não vamos tolerar crueldade em nome da moda!” 

Recentemente a Arezzo, uma das mais famosas marcas de sapatos e bolsas do Brasil, recebeu inúmeras criticas e protestos após lançar a coleção Pele Mania, nome sugestivo e infeliz, que trazia produtos confeccionados com peles e pêlos de coelho, raposa, cabra e lã de ovelha.

Lançada em tempos de redes sociais e comunicação instantânea, a coleção causou um grande mal estar entre protetores e consumidores da marca. Como uma avalanche, o protesto logo se espalhou e se tornou um dos assuntos mais falados no Twitter (trends) e ganhou a página Boicote Arezzo no Facebook, atualmente com mais de 7 mil adeptos.

Diante de tanto repúdio, a marca – num gesto de lucidez – resolveu retirar a coleção das lojas, com um comunicado. Leia alguns trechos:

A Arezzo entende e respeita as opiniões e manifestações contrárias ao uso de peles exóticas na confecção de produtos de vestuário e acessórios (…). Não entendemos como nossa responsabilidade o debate de uma causa tão ampla e controversa (…). 

“A moda sempre usou peles por uma questão cultural, mas tal hábito começa a mudar com a informação que chega as pessoas a respeito de que modo essa “materia-prima” é obtida. Tortura é a palavra-chave.”, condena o promotor Laerte Fernando Levai.

Outras marcas também utilizam pele animal em suas confecções, mas aos olhos da lei brasileira não fazem nada irregular. Segundo a própria Arezzo, as peles eram regulamentadas e certificadas, cumprindo todas as formalidades legais que envolvem a questão.

Se as marcas estão amparadas pela lei, quem pode barrar essa moda tão cruel?

Você decide
Enquanto não temos uma legislação mais justa para os animais, o poder de decisão fica nas mãos do elemento mais valioso para as marcas: o consumidor. Ou seja, o poder de compra é o que decide o que é aceito ou não pela sociedade.

Quando a editora do portal R7, da Rede Record, Alessandra Siedschlag, ficou sabendo da coleção Pele Mania, não pode acreditar. “Não achei possível alguém em 2011 acreditar que vender pele de raposa e de coelho é uma coisa bacana”. Mas infelizmente era verdade e diante do triste fato, resolveu agir.

Em parceria com o amigo David Cohen, com quem tem o site Projeto Salvação, divulgou um cartazete em repúdio à marca. Essa ação poderia ser pontual e não chamar muita atenção, mas @alesie (nickname que utiliza no Twitter), tem mais de 22 mil seguidores e o protesto fez barulho.

A retirada da coleção pela Arezzo foi uma vitória, mas Alessandra é cautelosa, “gostaria que isso realmente se refletisse em um maior respeito aos animais FORA das redes sociais, como por exemplo com os cães abandonados, de que nosso Brasil está cheio e as pessoas encaram como uma coisa comum”, e finaliza, “eu realmente acredito que eles estejam amparados pela lei. Mas isso não quer dizer que seja uma coisa bacana. É cafona, é cruel, é démodé, e meu Deus, estamos no Brasil! Que história é essa de usar pele de raposa?”.

Alessandra, como uma cidadã brasileira inconformada com uma situação, resolveu agir. Para ela, uso de pele animal é crueldade pura e simples. E ponto final.

 

Pelo mundo
Alguns exemplos internacionais mostram que a pressão de ONGs e, principalmente, da sociedade, está fazendo a diferença pelos animais.

No Canadá, de acordo com a associação Humane Society International, o número de focas assassinadas está diminuindo. Em 2007 foram 217 mil e no passado caiu para 69 mil. Esse ano, apesar do governo canadense autorizar a morte de 268 mil focas, espera-se um número bem menor de óbitos. Os índices vêm caindo graças ao esforço da associação e da maior conscientização da sociedade.

Esse mês, Seul, capital da Coréia do Sul, exigiu que a grife italiana Frendi não utilizasse peças confeccionadas com pele animal. A determinação veio após manifestações de protetores do mundo inteiro.

Ainda em maio, a ONG PETA, famosa por sua ação contra o uso de pele animal, promoveu uma manifestação contra o uso de couro na Índia e ainda enviou a primeira dama norte-americana, Michelle Obama, uma jaqueta de couro sintético, para incentivar o uso de materiais alternativos e livres de crueldade animal.

Alternativas
No Brasil, a professora de Design em Moda na UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), Neide KohlerSchult, coordena há 7 anos o Programa de Extensão Ecomoda.

“Depois de 7 anos de pesquisas e propostas para um vestuário ecológico e sustentável, vejo que as pessoas estão cada vez mais conscientes quanto ao impacto do consumismo. Trabalho muito com palestras, oficinas, desfiles e também alunos e pessoas da comunidade que pretendem produzir e consumir de modo que o impacto ambiental seja menor”, afirma a Profa. Neide.

Ainda segundo a professora, já existe até opção para o couro utilizado pela indústria automobilística. “No norte do Brasil e em outras regiões temos o maravilhoso couro vegetal, feito de tela de algodão e borracha. Um produto fantástico, praticamente todo exportado e difícil de encontrar aqui no Brasil.”

Reflexão
Para as marcas que ainda utilizam peles de animais, fica a mensagem da professora Neide: “Estas peles devem ser usadas unicamente pelo seu proprietário original: o animal. Este sim deve desfilar a sua beleza pelas passarelas da natureza sob a luz do sol e ao som dos pássaros, das águas, do vento…”, finaliza.

Lembre-se, você é quem dita o que será ou não consumido, o que será ou não aceito. E é inaceitável que nos dias de hoje, com tantas opções, milhares de animais sejam mortos para suprir um consumo supérfluo e sem consciência.

 

Mande para ARCA Brasil ([email protected]) os nomes das marcas brasileiras que ainda utilizam pele animal e juntos enviaremos o nosso protesto!

Autora: VANESSA GONZALEZ
Em colaboração para a ARCA Brasil

Fonte - Notícias da ARCA Brasil: https://www.arcabrasil.org.br/noticias/1105_peles.html

Esta entrada foi publicada quinta-feira, junho 9th, 2011 às 15:14 dentro de Curiosidades, Notícias. RSS 2.0 Both comments and pings are currently closed.